LIÇÃO DE VIDA

 

Um dia destes recebi uma correspondência de uma pessoa amiga, contendo uma mensagem atribuída ao inesquecível Charles Chaplin. Seu teor é de uma profundidade tal, que não me atrevo a duvidar de que seja ele mesmo o autor. Vejam:

"Esquecendo os erros do passado construímos nosso novo mundo. Talvez nos falte poesia...Talvez nos falte amor. Mas com certeza podemos dar um pouco mais, pois com certeza o amor que não damos é o mesmo que não recebemos. E talvez mirando-nos em exemplos de coragem, trabalhando pela paz e compreensão entre os homens, possamos um dia erguer os olhos novamente"

Realmente, é muito comum querermos que os outros estejam sempre atentos a nossos quereres, sempre estarmos a exigir a atenção para nossos desejos, querendo que sejam atendidos. Porém, ao exigirmos isso dos outros, será que estamos fazendo nossa parte? Ou seja, estaremos nós atentos ao que se passa com os outros? Estaremos nós dando a devida atenção aos desejos alheios? Ou será que, preocupados com nossos problemas, com o que ocorre conosco, não estaremos fechando os olhos e o coração para os outros.

Se à nossa vida falta poesia, falta amor, falta carinho, é necessário que, antes de começar a criticar o mundo que tudo nos está negando, façamos um exame de consciência para saber qual o nosso grau de culpa nessa atitude hostil para conosco.

É imprescindível perguntarmo-nos se estamos procurando doar algo de nós. Se estamos dando às pessoas de quem reclamamos atenções e carinho, essa mesma atenção, esse mesmo carinho.

A vida é uma longa estrada de mão dupla. Tudo aquilo que passamos por uma das vias da estrada, receberemos de volta. Geralmente (claro que nem sempre ocorre essa troca, pois alguém, muitas vezes deixa de fazer uma entrega adequada), se passarmos amor, compreensão, apoio, carinho, deveremos receber tudo isso de volta.

Porém, se pelo contrário, egoisticamente nos fecharmos em nosso mundo, e só passarmos a cobrar tudo de todos, acabaremos por receber reações hostis. É normal que isso aconteça. Se só passarmos cobranças, receberemos igualmente cobranças.

Então, usando a velha sabedoria popular, "faça aos outros, somente aquilo que queres que os outros te façam", volto a insistir na necessidade que existe de que todos nós sempre procuremos passar amor, carinho, amizade, e certamente receberemos isso de volta.

Não vale a pena também ficar armazenando mágoas. Se acharmos que alguém nos magoou, sempre é necessário verificar se isso foi feito voluntariamente ou não. A única maneira de se dirimir uma dúvida, é uma conversa franca e direta.

Essa conversa deve ser feita na primeira oportunidade, e o mais rapidamente possível, pois se a formos protelando, mais a mágoa crescerá dentro de nós, e mais o causador, voluntário ou não, irá se esquecendo do ato praticado.

Devemos ter presente que, da mesma maneira que alguém nos fere, também podemos ferir alguém sem o perceber. E vai se formando uma bola de neve, que por vezes leva tudo de roldão.

Por vezes, quem nos magoou, não se apercebeu do fato e continua agindo da mesma maneira. Nada falamos. Nossa mágoa aumentando. A raiva crescendo dentro de nós. E o outro sequer nota, o que mais aumenta a mágoa, que com o correr do tempo se transforma em raiva, e acaba virando ódio.

Um dia descarregamos tudo. Todas as frustrações. Todas as raivas. E ficamos estarrecidos ao descobrir que do outro lado também existiam queixas. Também o vínhamos ferindo e, fechados em nossa raiva, não notávamos o movimento na estrada de mão dupla. Até acontecer o acidente fatal. E se não houver uma dose de equilíbrio muito grande, as coisas podem tomar rumos inimagináveis.

Quantas boas amizades terminaram por causa disso. Houvessem dialogado antes, tudo poderia ser esclarecido. Um pedido de desculpas, uma mudança de atitude e quantos aborrecimentos teriam sido evitados.

Mágoas nunca devem ser armazenadas. Dúvidas sempre devem ser dirimidas. Diálogo é a palavra de ordem. É o que gera o entendimento, a compreensão.

 

 

Marcial Salaverry


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