O DESEJO DE UM SOLDADO

 

O DESEJO DE UM SOLDADO
Marcial Salaverry
 
Certamente todo e qualquer soldado, o que mais deseja é o fim da guerra, o fim daquela agonia de tentar salvar sua vida, e sentindo aquela triste necessidade
de matar inimigos, mesmo sem entender que para salvar sua vida, precisa matar alguém. Com certeza é algo que violenta uma alma que na verdade gostaria de resolver a pendencia num campo de futebol, e não numa batalha cruenta.
Certo que podem existir alguns que adoram essa situação de ceifar vidas, mas são espíritos neuróticos, voltados para o mal, e não vale a pena falar deles, pois a grande maioria apenas deseja viver em paz.
E numa singela homenagem a esses soldados em cujo olhar vemos estampado a saudade de seu rincão, de sua familia, quero apenas transcrever um verdadeiro hino composto por Guilherme de Almeida, para os pracinhas brasileiros que de repente se viram numa terra desconhecida, tendo que lutar por sua vida, tendo que matar outros soldados, para um dia matar a saudade de sua terra, de seus familiares e amigos.
Muitos lá ficaram... e vale o preito de saudade...
Ainda me lembro da festa quando eles retornaram, com o fim de mais uma guerra cruel e insana...
 
CANÇÃO DO EXPEDICIONARIO
Guilherme de Almeida

Você sabe de onde eu venho?
Venho do morro, do engenho,
das selvas, dos cafezais,
da choupana onde um é pouco,
dois é bom, três é demais.
Venho das praias sedosas,
das montanhas alterosas,
do pampa, do seringal,
das margens crespas dos rios,
dos verdes mares bravios,
de minha terra natal.
Por mais terras que eu percorra,
não permita Deus que eu morra
sem que eu volte para lá
sem que leve por divisa
esse "V" que simboliza
a vitória que virá:
Nossa Vitória final,
que é a mira do meu fuzil,
a ração do meu bornal,
a água do meu cantil,
as asas do meu ideal,
a glória do meu Brasil!
Eu venho da minha terra,
da casa branca da serra
e do luar do sertão;
venho da minha Maria
cujo nome principia
na palma da minha mão.
Braços mornos de Moema,
lábios de mel de Iracema
estendidos para mim!
Ó minha terra querida
da Senhora Aparecida
e do Senhor do Bonfim!
Você sabe de onde eu venho?
É de uma pátria que eu tenho
no bojo do meu violão;
que de viver em meu peito
foi até tomando um jeito
de um enorme coração.
Deixei lá atrás meu terreiro
meu limão meu limoeiro,
meu pé de jacarandá,
minha casa pequenina
lá no alto da colina
onde canta o sabiá.
Venho de além desse monte
que ainda azula no horizonte,
onde o nosso amor nasceu;
do rancho que tinha ao lado
um coqueiro que, coitado,
de saudade já morreu.
Venho do verde mais belo,
do mais dourado amarelo,
do azul mais cheio de luz,
cheio de estrelas prateadas
que se ajoelham, deslumbradas...

 

 

Marcial Salaverry


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