A HISTORIA DE LAURA E A PONTE

 

 

A HISTORIA DE LAURA E A PONTE

Marcial Salaverry

 

 

A história começa em 1944, numa pequena cidade de interior, com o nascimento de Laura, uma linda criança, que sempre fora muito desejada por seus pais, e assim,  sempre procuraram o chamado “melhor” para ela, dedicando-lhe todo carinho, suprindo-a de todas as necessidades, logicamente, dentro das possibilidades paternas, principalmente levando-se em conta as agruras do pós-guerra, quando tudo era difícil, pleno de dificuldades...

           

A menina cresceu, e como sempre foi uma criança muito bonita, cuja simpatia cativava parentes e amigos, começou seus estudos em uma escola rural, logicamente com as limitações inerentes de uma cidade realmente pequena do interior, ainda mais considerando que uma ponte separava os dois lados da cidade, o lado de cá, onde ela habitava, a vida rural plena de dificuldades, e do outro lado, a cidade com suas luzes, com sua beleza.

Em seu íntimo, Laurinha não se conformava com esse estado de coisas, queria mais, queria atravessar a ponte, porém, como conseguir, pois seus pais, de origem modesta, faziam o que melhor podiam, e não tinham condições de realizar esse sonho.

 

Porém não era só isso que incomodava essa menina de espírito tão inquieto.  Havia, também, a autoridade paterna, inerente à época, em que os filhos deviam obediência total e cega ao pai, sempre autoritário e severo, principalmente com as meninas, cuja educação era voltada unicamente para o lar, ou seja, as obrigações e funções de uma menina voltavam-se tão só e somente para as coisas do lar.  Casar, cuidar do lar.  Ter filhos e cuidar deles.  Mais nada... Algumas ainda conseguiam formar-se professoras, mas, após o casamento, deixar o diploma na parede, e nada além do que cuidar da casa.

Laurinha, porém, queira mais, sonhava com a vida "do outro lado da ponte", onde havia mais progresso, outra mentalidade.  Evidentemente ela nascera fora de época,  suas idéias eram muito avançadas, e ela sofria com a incompreensão de todos, já que, na mentalidade tacanha da época tais pensamentos eram, até, pecaminosos, e tome castigos paternos, e tome punições impostas pelo padre da paróquia (a quem seus pais recorreram), visando “reconduzi-la ao bom caminho”.

 

Tudo isso, acabou levando Laurinha a fingir que aceitava esse estado de coisas, porém seu íntimo e sua cabecinha continuavam revoltados, pois submissão era palavra que não encontrava abrigo em sua mente, e a única coisa que a autoridade paterna não poderia dobrar, seriam suas idéias,  que ficaram guardadas, mas não esquecidas.  Porém, sempre ficou marcada como criança rebelde. 

Conforme as tradições, cedo casou-se.  Queria, com o casamento, fugir da autoridade paterna, poder, enfim, ter suas idéias, viver como queria, ter oportunidade de lutar para melhorar de vida, satisfazer suas ambições, e o desejo de cruzar a ponte, era sua ideia fixa. Queria deixar, enfim, de ser simplesmente a mocinha do interior que deveria passar a vida toda somente enfiada dentro de casa, cuidando de marido e filhos.  Iria, enfim, mostrar que ela, Laurinha, passaria a ser Laura, uma mulher, uma pessoa plena de capacidade, capaz de realizações.  Iria mostrar que as mulheres não precisavam ser unicamente “donas de casa”, rótulo que a incomodava demais.  Iria, enfim, VIVER.

 

Logo constatou que nada mudaria... Casara-se por amor, e acreditava que conseguiria mostrar ao seu marido, que poderia ajudá-lo a crescer, que, com sua capacidade, com sua inteligência, poderiam, ambos, crescer e subir na vida. Enfim, atravessar as duas pontes, a que separava os dois lados da cidade, e a que poderia fazer superar os preconceitos de época, porém, havia se casado com um homem de pouco nível cultural, que trabalhava em contato com operários e, acostumado com a lida, achava que nisso era competente, e não tinha a menor vontade de mudar de ares.  Para que estudar? Assim mantenho meu lar e sustento a família. Sou o homem da casa e tenho competência necessária para sustentar o lar. Atravessar a ponte, para viver com aqueles "almofadinhas"? Nem pensar...

 

Quando Laura quis prosseguir com os estudos, entrar para uma Faculdade, Gabriel subiu pelas paredes.  Vociferava: “Nunca... Mulher minha tem que cuidar da casa...Faculdade, para que ?”. E essa foi a gota que entornou o líquido do copo... Laura rebelou-se de vez e, fiel às suas idéias, entregou-se de corpo e alma à realização de seu sonho louco, segundo opinião de seus pais e de Gabriel.  Porém, esse sonho louco era vital para Laura, pois sufocando-o, estaria matando sua alma.

Ninguém acreditava, em sã consciência, que Laura conseguiria concretizar semelhante sandice, somente ela conhecia a medida real de seu espírito vibrante e lutador, e acreditava em suas possibilidades.

E para dificultar ainda mais, cumprindo sua vocação maternal, teve cinco filhos.  Como conciliar a maternidade com estudos, com  trabalho ? Laura é louca, diziam, mas a “louca” não desistia, e enfim, mostrava de que massa era feita, pois não acompanhava a mentalidade da grande maioria das mulheres de sua geração, que evidentemente, a discriminavam.  Laura tinha idéias esquisitas, diziam.  Não serve para ser nossa amiga, "pois não conversa sobre nossos assuntos, imagine, que outro dia veio dizendo que as mulheres devem, e podem ser independentes, o que é um absurdo, os homens é que tem obrigação de nos sustentar..."

 

Laura só conseguia encontrar ambiente no meio universitário, grande maioria masculina.  Não é preciso dizer que isso incomodava demais a cabeça de Gabriel, que imaginava que sua esposa, sempre rodeada de homens, seria desejada por todos.  Não era capaz de enxergar e entender que era amado por Laura e, apesar do ambiente pesado dentro do lar, Laura, teimosa, não abdicava de seu ideal.  Já houvera sido suficiente a opressão paterna, para que cedesse à opressão conjugal.

Formada, Laura resolveu dedicar-se a um campo de atividades que mais e mais a deixava cercada de homens e, para piorar o estado de coisas, de homens cultos, de posses.  Aí, já foi demais para a mente tacanha e estreita de Gabriel, que deu o ultimato: “Chega Laura.  Escolha.  Ou essa profissão maluca, ou eu”...

Diante de tal intolerância, Laura rebelou-se de vez e não titubeou na escolha, casamento desfeito, e aí, começava nova fase em sua vida. Finalmente do outro lado da ponte, com a vida que sempre sonhara...

Sua profissão absorvia quase todo seu tempo, e surgiam novos problemas,pois agora eram os filhos que começavam a exercer pressão, pois consideravam-na culpada pela saída do pai, que havia ficado com sua vida "do lutro lado", e que a queria de volta, e os filhos reclamavam "custava atender sua exigência?  Custava mudar de vida?"

 

E assim, seus sonhos de uma vida melhor, seus sonhos de êxito pessoal, seus sonhos tão sonhados, estavam mais uma vez ameaçados, mas Laura, heroicamente, não cedeu.  Fez das tripas coração para conciliar as coisas.  De certa maneira, conseguiu, ou quase, pois seus filhos continuavam a pressão, querendo mais e mais sua atenção e dedicação, sempre em detrimento de sua vida profissional, e para culminar, um sócio em seu empreendimento roubou suas idéias, e deixou-a na mão, pois ela, muito romântica, ainda acreditava nas pessoas, e não havia registrado a idéia em seu nome, e o tipo simplesmente alegou que ela não dava sentido prático às coisas, que era muito humana, e a realidade da vida é cruel, temos que tomar das pessoas o que elas tem para nos dar, e não ajudá-las a conseguir as coisas... Tais idéias não eram aceitas pela alma generosa de Laura, então mais um golpe do Destino.

Ela nunca tivera boa saúde, o que era atribuído ao estresse de sua vida atribulada, os médicos diziam não ser nada sério, algo apenas psicológico, como uma forma de chamar a atenção... Chamar a atenção? Loucos são eles, e não eu, pensava nossa rebelde Laura, que nunca aceitara rotulações, e finalmente, um exame mais acurado constatou que, efetivamente, Laura tinha uma rara alergia alimentar (até para doenças, Laura tinha que ser diferente).

Como tratamento, ela deveria se afastar da cidade grande, e do que mais adorava, a vida atribulada e corrida, seu trabalho cansativo e apaixonante e principalmente, das comidas de que tanto gostava.  Que fazer?  Como conciliar as coisas? E teria que atravessar a ponte em sentido inverso, voltando para a vida pacata "do outro lado"...

Eram dois caminhos, um, a conduziria a uma morte breve, pois se permanecesse na cidade grande, e naquele tipo de vida é o que aconteceria a curto prazo.  O outro, a uma vida mais longa, mas longe de tudo que amava... Céus...que fazer ?

Seguindo o instinto natural de sobrevivencia, Laura resolveu finalmente que mais valia a vida do que o sonho, e embora com tristeza na alma, atravessou novamente a ponte, voltando para suas origens, vencida pela doença, mas com a alma plena da certeza de que teria sido possível sim. Que as mulheres podem, sim, atravessar a ponte para mostrar sua capacidade de trabalho e sua competencia, mas que também sabem quando é a hora de rever idéias e ideais...

 

 

Marcial Salaverry


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