O VULCÃO E O LAGO KIVU

 

O VULCÃO E O LAGO KIVU                         
Marcial Salaverry
 
Este não é um capítulo de  Um Brasileiro na África que, fugindo de alguma mamãe hipopótamo furiosa, apareceu aqui. Foi algo acontecido um bom tempo depois de eu ter voltado do Congo, mas atingiu diretamente minhas recordações, e que certamente me entristeceu muito, pois vi a Natureza cometer algo que pode ser chamado de crime, e um crime cometido pela Natureza é realmente entristecedor. Talvez tenha sido apenas uma reação, ou um aviso para os homens de que também ela sabe punir e se defender.
Lembrando que no livro UM BRASILEIRO NA ÁFRICA existe um capitulo que fala sobre a estadia no Kivu,  quando narrei a travessia do Lac Kivu, e tentei descrever as belezas deste lago encantado, e também da cidade de Goma, que era um pequeno pedaço de paraíso, encravada no meio da selva africana.
Pois bem, a Natureza resolveu acabar com essa beleza, e para tanto, um vulcão, que estava sossegado há centenas de anos, resolveu acordar, e resolveu acabar com essa bela cidade, com o maravilhoso Lac Kivu, e com toda essa bela região.
Pelo que vi na televisão, pouco ou nada restou dela para confirmar o que descrevi no livro, pois Goma praticamente não existe mais.
O Lac Kivu onde havia depósitos de gás metano, o que proporcionava um movimento semelhante às ondas do mar, certamente não deve mais ser o mesmo.
Aquela natureza exuberante, a mata verdejante, as belas mansões que existiam às margens do lago, desapareceram no caminho da lava  fumegante.
Pelo que me foi dado ver, a linda Avenue du Lac com as residências de veraneio e seus maravilhosos jardins, cuidados com tanto esmero, também foi engolida pela lava.
E as maiores vítimas, os habitantes de Goma, justamente os Intore, povo de maior cultura do Congo, e os de melhor índole, sofreram prejuízos incalculáveis.  Os números oficiais falam em 45 mortos, mas com certeza, como sempre, procuram tapar o sol com a peneira. Do jeito que ficou a cidade, da maneira como a lava varreu tudo, é impossível que tenha sido apenas essa a quantidade de desaparecidos.  Bom seria se reais fossem esses números.  Não creio.
Bem, são coisas da Natureza.  O homem comete crimes muito maiores contra ela, e de vez em quando ela resolve dar um troco, e mostra sua força, mostra que também sabe destruir.  Não é tão cruel quanto o homem, que destrói deliberadamente, mas também sabe fazê-lo.
Lamento apenas que uma das minhas mais caras recordações,  agora seja apenas uma recordação mesmo, e o mais chato, é que nessa viagem a Goma, ao invés de fotos, tirei “slides”, e estes, sofreram a ação do tempo, e se estragaram, não tenho portanto nada que possa ser uma "recordação física"...
Tenho apenas que fechar os olhos, e lembrar de quando, às margens do Lac Kivu, “matei” a saudade de Santos, ouvindo o marulhar de suas águas, movidas pelo gás metano que agora fez tudo isso. Posso também recordar a visão da janela do quarto no Hotel Edelweiss, vendo a paisagem magnífica que se descortinava.  E que agora não existe mais.  Guenta, coração...
Bem, desculpem-me esta “explosão melancólica”, mas foi mais forte do que eu...
Ao escrever em julho/2003 o fiz com a mesma melancolia que agora permeia meu coração, e agora constatei que fechando os olhos, ainda vejo tudo como na época em que lá estive, nos idos de 1971...Creio que agora, (2015), já deve estar reconstruida e modernizada. Espero que assim esteja, pois a região era belíssima...

 

 

Marcial Salaverry


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