VELHA RUA DA CONSOLAÇÃO

 

VELHA RUA DA CONSOLAÇÃO
Marcial Salaverry

"Da velha Rua da Consolação,
guardo a mais doce recordação...
Aventuras de uma infancia bem vivida,
do Cine Odeon, e o primeiro beijo de amor..."

Uma das presenças marcantes em minha infância, foram os cachorros, sempre os houve em grande quantidade, pois meu pai tinha uma autentica “plantação canina” em casa. Principalmente no já velho casarão da Rua da Consolação, de onde vem minhas lembranças primeiras.

A casa era enorme, com 10 quartos, sendo 6 ocupados pelos meus irmãos e por mim, outro pelo meu pai, outro era escritório, e havia a maternidade canina.  Sempre que uma das cadelas ia “ter nenês”, era naquele quarto. Um quintal enorme, onde se destacava impávida uma grande paineira, que sempre quando floria, fazia a nossa festa.

Guardo lindas lembranças do Cine Odeon, com suas Sala Azul, Sala Vermelha, Sala Verde, onde era uma delicia assistir às sessões triplas da época.

E da Radio América, na esquina da Consolação com São Luiz. Lembro com saudade dos programas do Nho Totico, e dos inesquecíveis shows da Hebe Camargo, uma linda adolescente que fazia sonhar a meninada da época...

Dessa casa, posso me lembrar de alguns episódios esparsos, como o do infeliz ladrão que tentou nos assaltar.  O meliante olhou pelo muro, e não percebeu os 12 dinamarqueses que estavam repousando, e pulou.  Os cães se aproximaram.  Ele tentou fugir, e não conseguiu. Durante a noite, escutei alguns rosnados dos “bichinhos”, mas não liguei.  Quando me levantei de manhã, e fui dar meu bom dia aos amiguinhos, fiquei surpreso ao vê-los calmamente sentados em volta da paineira. Reparei que havia um cara encostado na árvore, balbuciando algo ininteligível.  Chamei meu pai, que se limitou a olhar a cena, e, sadicamente deu a ordem : GUARDA!. Os cães ficaram mais alertas e o coitado quase arreou.  Fomos tomar nosso café tranquilamente, e depois chamamos a policia. O infeliz havia feito tudo que seu organismo queria durante a noite, e deu um grande suspiro de alivio quando os policiais o levaram.  Tenho a impressão de que ele se regenerou, depois dessa romântica noite de luar.  Não deve ter sido muito fácil para ele passar aquela noite com doze pares de olhos faiscantes fixos em sua figura.  Tentem visualizar a cena.

"Que saudade que tenho de minha infancia querida...", e da velha Rua da Consolação 279...

E haja recordação...

 

 

Marcial Salaverry


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