O MONÓLOGO DA VELHINHA SAFADA

 

O MONOLOGO DA VELHINHA SAFADA...
Marcial Salaverry

Na janela de seu apê na Rua Aurora, a velhinha procurava clientela...
Sua cara enrugada não ajudava muito, mas sua boca trêmula e desdentada ainda eram atrativo. Não faltava quem ainda desejava os prazeres que ela poderia ofertar.
Enquanto procurava, a velhinha pensava, lembrando-se de outros tempos, quando era a Rainha da Casa da Eny.
Pois essa velhinha safada, nos velhos e bons tempos foi sempre admirada.
Quando o cliente era um fazendeiro de largas posses, ela se mostrava terna e apaixonada, sabendo levar à loucura todos aqueles por quem ela se interessava, que poderiam lhe deixar um gordo cachê.
Mas se notava que o cliente não era endinheirado, tratava-o quase que com desprezo, sendo fria e distante. Não perdia clientela, pois era linda, realmente uma mulher que usava e abusava de sua sensualidade e, apesar de seu comportamento duvidoso, sempre era requisitada.
Apenas estava procurando encontrar um rico fazendeiro que conseguisse conquistar com seus encantos.
Contudo, acabou tendo seu castigo, quando entrou em sua vida um jovem viajante que, apesar de seu aparente desinterêsse, soube conquistá-la com sua maneira especial de fazer amor. Apaixonou-se perdidamente. E se desesperou quando o rapaz sumiu, pois vivia longe de Bauru. Ela já não conseguia mais atender seus outros clientes, tornou-se irascível  e, desesperada pela paixão, caiu no mundo, tentando encontrar o objeto de sua paixão.
Se fez besteira ou não,  isso é questão de interpretação, o certo é que ela jamais conseguiu encontrar seu amor, e ficou mais desesperada quando soube que ele houvera estado na Casa da Eny, à sua procura, dizendo que ela sempre seria destaque em seu coração.
Começou a descer os degraus da vida, até chegar ao minúsculo apê da rua Aurora, no baixo mundo de São Paulo, e passava as horas na janela, tentando, ora encontrar algum cliente que ainda se sentisse atraido por seu olhar e sua boca trêmula, ora ainda na busca triste e desesperada de seu amor perdido.
Em seu monólogo cheio de mágoa, ela apenas lamentava a ingratidão de seu coração, pois com tantos homens a seus pés, foi se apaixonar justo por quem a desprezou.
São realmente coisas da vida.
Como ainda mantém um olhar sedutor, que sempre desperta um certo calor, consegue faturar para comer.  Então, vivendo com seu  pensamento nas glórias do passado, seu viver atual não dá margem para muito lamento...
Então... longa vida à velhinha safada, muito querida e muito amada...Viveu sua época... e perdeu-se por amar a pessoa errada, que talvez não saiba de seu triste destino...

 

Marcial Salaverry


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