UMA NOITE COM UMA LEOA

 

UMA NOITE COM UMA LEOA
LEMBRANÇAS DO CONGO
Marcial Salaverry
 
O jipe tinha de enguiçar naquela ponto da estrada, onde passava um veiculo a cada 3 dias... A noite chegando, e o LandRover não queria saber de andar...Algo precisava ser feito...
Solução? Simples. Alexander iria a pé até a missão (apenas dezesseis quilômetros de caminhada) e eu ficaria “para tomar conta do jipe”.  Não estava disposto a caminhar tudo aquilo, pois já estava quase anoitecendo e teria de andar no mato. Decididamente, não seria a melhor maneira de praticar o salutar esporte da caminhada.
 
Fiquei... Mas antes tivesse ido, pois quando começou a escurecer, literalmente comecei a ver “as coisas pretas”.  Não sabia ainda que as feras gostam de passear à noite. Fiquei sabendo ao identificar a sombra de alguns leões, rodeando aquela enorme lata de conservas, que é como acreditava que os leões estavam encarando aquele jipe.
 
Lá, trancado, com uma reserva de água e de frutas, estava quase tranquilo. Foi quando uma sedutora leoa resolveu conferir o prazo de validade do alimento (eu) e subiu no capô do jipe. Deitou-se calmamente e começou a olhar curiosamente para o interior do carro.
Para tentar assustá-la, acendi a lanterna bem sobre seus olhos, que faiscaram com a luz.
 
Ao invés de assustada, ficou irritada e deu uma patada no pára-brisa. 
 
Assustado fiquei eu e apaguei imediatamente a lanterna. Comecei a sentir a mesma sensação de desconforto que devem sentir as sardinhas dentro da lata. Após uma ardente troca de olhares, a  amável visitante resolveu encerrar a visita e com uma sensual espreguiçada desceu do jipe e desapareceu no mato. Isso, depois de um namoro que demorou mais de uma hora.
 
Com o correr do tempo, percebi que o socorro só poderia chegar pela manhã, o que realmente era o mais lógico, pois alguém para encarar aquela estrada à noite, teria de ser a mais insana das criaturas. 
 
Preparei-me para passar a noite com todo conforto do Sheraton ambulante. Logicamente a imobilidade dentro do jipe começou a cobrar seu tributo. Comecei a sentir cãibras nas pernas e, pior ainda, certas necessidades fisiológicas. Mas... tanto para esticar as pernas como para outros alívios, precisaria descer do jipe. Cadê coragem?  Quando eu tentava me convencer de que os leões tinham ido para outro canto, meu outro eu dizia que eles estavam lá fora, só esperando a comidinha sair da lata. E, claro, fui ficando. E sem conseguir dormir, pois os ruídos da noite, e os rugidos das feras conseguiram me manter bem acordado.

 

 

Marcial Salaverry


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